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A partir do reconhecimento do emplacamento como estratégia recorrente nos processos de tombamento, patrimonialização e resignificação de lugares conectados à memória da dor na América Latina, o trabalho visa questionar a eficácia das ‘placas de memória’ articulando diferenças e proximidades de distintos projetos: Baldosas por la Memoria (Argentina), Placas de la Memoria (Uruguai), Residencias de la Memoria (Chile), Inventário Memória Paulistana (São Paulo) e Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca (Rio de Janeiro).

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O emplacamento da memória sensível como estratégia de reparação histórica


O trabalho parte de exemplares de placas fixadas em distintas cidades da América Latina com o intuito de questionar a eficácia  do emplacamento como estratégia de visibilização da memória sensível, voltada a eventos históricos que lesaram os direitos humanos.  A possível patrimonialização da casa natal de Carlos Marighella (1911-1969), famoso guerrilheiro que lutou contra a ditadura militar, é um assunto que traz à tona essa discussão. A negação do Instituto do Patrimônio da Bahia sobre o referido testemunho com a justificativa que: “Os remanescentes existentes dos imóveis [...] já não possuem mais elementos que justifiquem uma análise de mérito para tombamento estadual. [...] Independentemente da inexistência de tombamento, sugerimos a identificação dos imóveis com uma placa em memória a Carlos Marighella, notável personagem da história do Brasil, no século XX. (BAHIA, 2014, s/p); mostra como esta ferramenta pode ser usada, pelos órgãos de patrimônio, de forma superficial.

A cidade, como agente de memória, pode atuar na elaboração de resistências inconscientes, gerando uma ação crítica e eticamente responsável sobre o presente?A simples identificação do lugar pode atuar como instrumento de justiça, verdade, memória e reparação? O reconhecimento de um logradouro pode agir como instrumento de reparação à família ou à comunidade que se identifica com a luta de Marighella? 

Na América Latina, destaca-se o projeto Baldosas por la Memoria (2005), em Buenos Aires, que partiu  de uma organização comunitária portenha. O projeto via a necessidade de marcar a cidade com as memórias de vizinhes presees, mortes e desaparecides durante a ditadura militar.  A prática ecoou em iniciativas similares em várias cidades na Argentina, assim como no Paraguai. Já o projeto Marcas de la Memoria (2015), no Uruguai tem como objetivo a identificação, em todo o território nacional, de lugares onde ocorreram ações e eventos importante em relação à resistência ao regime de exceção: localizar e executar placas para identificar estes lugares, assim como instalar bancos de concreto,  transformando os vazios deixados pela ausência  numa rede coletiva de espaços de memória que convoquem ao encontro. No Chile, o projeto Residencias de la Memoria instala, desde 2017, placas em frente à residências de pessoas presas, desaparecidas ou executadas durante a ditadura militar.

Como a identificação pode levar à ação e por consequência, a elaboração da memória? No Brasil, é possível encontrarmos outros projetos em torno da memória que lançam mão de placas como recurso material. Por exemplo, o Inventário Memória Paulistana: que desde 2019 instala placas em lugares de relevância histórica da cidade de São Paulo. No projeto, os mesmos suportes sinalizam o Pelourinho de São Paulo, Cemitérios, Festivais, ações históricas, dentre outros fatos memoriais.  O mesmo pode ser dito do Circuitos do Patrimônio Cultural Carioca (2015), que sinaliza desde lugares como o Cais do Valongo à espaços como cinemas, teatros, bares, botequins, residências de artistas, entre outros. 

No entanto, estes projetos utilizam o mesmo formato de sinalização para distintos eventos da história, o que não demonstra a mesma eficácia sensível que projetos específicos como as baldosas, ou os bancos de concreto do projeto Marcas de la Memoria. É preciso que a identificação de lugares de memória ultrapasse a simples implantação da placa, proporcionando a interação entre público e mensagem. Uma simples mensagem traz o que Paulo Freire (2016) chama de conscientização ingênua, superficial e codificada em um objeto. A descodificação da memória só poderá ser ativada a partir de ações de conscientização crítica que possam firmar relações, responder desafios e suscitar diálogos.


Bibliografia


FEIERSTEIN, Daniel. Memorias y representaciones: sobre la elaboración del genocídio. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 2012.


FREIRE, Paulo. Conscientização. São Paulo: Cortez, 2019.

BAHIA. Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC). Ofício GAB nº 370/2014. Documento 0800140038144. Salvador: IPAC. 03 Set. 2014. Assunto: Solicitação de tombamento da casa onde viveu Carlos Marighella.

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