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No tempo do agora, a profecia da espetacularização, proferida no final da década 60 pelo Movimento Internacional Situacionista, protagonizada por Guy Debord, alcançou seu ápice por meio de uma sociedade onde praticamente todos os aspectos da cultura e da experiência são intermediados por uma relação social capitalista. A capacidade de mercantilizar praticamente todas as esferas da realidade produziu uma sociedade mediada por imagens que adquirem autonomia – natural, divina, absoluta e inquestionável – fazendo das pessoas meros espectadores contemplativos e do espaço – público até segunda ordem – um lugar asséptico e consensual que sugere coreografias de uso que estimulam o seu encolhimento. A espetacularização das cidades está diretamente relacionada a diminuição das experiências, das práticas e da participação cidadã, onde os espaços urbanos tornam-se meros cenários consensuais, comandados por projetos “revitalizadores” que vem sendo realizados no mundo inteiro segundo uma estratégia estética generalizada e homogeneizadora de produção em série da cidade-imagem, onde as especificidades urbanas são consideradas perdidas e deterioradas. No entanto, nem todos foram atingidos por este fenômeno – ora por resistência, ora por “desencaixe” nesta realidade – gerando experiências no espaço urbano que tangem o caráter alternativo, o desvio, as micropolíticas, os escapes e as linhas de fuga, que geram uma “outra” cidade que se acomodam em frestas e revelam uma vivacidade fora das coreografias da espetacularização. Cidades latino-americanas, localizadas na periferia do sistema global, tendem apresentar efeitos mais exagerados deste fenômeno. São duas experiências dentro de uma única cidade: uma espetacular, que prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser; e outra praticada, de caráter dissensual, critica, misturada e afetiva. As duas possibilidades disparam as reflexões deste artigo na busca de um antídoto diante da cidade-espetáculo onde a ilusão é sagrada e a realidade é profana.

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